Décimas a António Gonçalves Correia

Ele levava a Liberdade
A todo o lugar que ia.
A toda a gente que via
Dizia em sinceridade
Da sua ideia, a bondade.
Em qualquer lado que estava
Esse sonho que levava,
Nascido do coração
Quase como uma oração,
A todos ele o contava.

O Gonçalves Correia andou
De caixeiro-viajante
Quem o viu até garante
Que alguma coisa ficou.
Que se ele tanto adubou
O seu sonho vai crescer
E vai outra vez viver
Logo que chegue seu tempo,
É só esperar o momento,
Da semente florescer.

Incansável lutador
No seu Alentejo viveu
Com todos ele conviveu
Levantando seu clamor
Sempre c’ um mesmo fervor
A todos os trabalhadores
Falava dos seus amores
Liberdade, Revolução
Paz com comunhão
De iguais, sem mandadores.

Nem passarinhos, queria presos
Abria gaiolas nas feiras
Soltava-os como bandeiras
Lutava p’los indefesos
Deixava todos surpresos
Com as coisas que fazia.
Sempre que ele aparecia
A liberdade trazendo
Seu ideal defendendo
A opressão estremecia.

Hoje tem nome na rua
No Alentejo é lembrado
Um pouco por todo o lado
Sua bandeira flutua
Negra, de noite com Lua
Nada pode a opressão
Contra livre coração.
Gonçalves Correia via
P’ra onde o futuro corria
Deixou-nos essa lição.


António Pereira
http://antoniogoncalvescorreia.blogspot.com.br/2014/09/decimas-antonio-goncalves-correia.html

O Pedreiro

Cyrano Reis Rezende Jr.

Quando o inegável rumor dos tempos
Despertar em si, faça-se luz!
Hei de superar dificuldades e contratempos
Serei aceito, a razão me conduz.

Conduzido enfim a porta do templo
Temerário esboçarei um arrojo
Mas obedeço, ouço, contemplo
Do homem que há em mim me despojo.

Aos pés do altar dos sacrifícios
Provo que não serei um perjuro
Bebo da taça sagrada, é o início,
Passo agora a projetar meu futuro.

Viajo com meu guia sob tempestades
Superamos dificuldades e batalhas
Chega a calmaria... tranquilidade
Morreu o homem velho e suas tralhas.

O cristo

Pelo trilho apagado, onde teu passo leve
Em vão deixou no pó do teu caminho,
Tento seguir-te o rumo e transtornado, em breve,
Volto outra vez, sem fé, para meu lar, sozinho.

Porque minh'alma, ó Cristo, é ímpia, não se atreve
A ver na hóstia o teu corpo e o teu sangue no vinho
E quando ao te evocar a minha pena escreve
Que tu és Deus, a razão se insurge e eu te amesquinho.

E esplendes, na tua cruz, como um símbolo apenas,
Pois toda essa missão de amor que te ilumina
É o sonho humano - o terno ideal das nossas pernas...

E o teu grandioso exemplo, o teu fulgor intenso,
Como o sol por detráz das gazes de neblina,
Desmaia, sobre o altar, entre as nuvens de incenso.

José Oiticica

-Sonetos (1905-1911)

O Amor

Aí tendes o Amor do século pujante,
A portentosa lei que há-de reger o mundo,
Quando o sol, que hoje rompe apenas no levante,
Atingir do zenite o páramo fecundo.

É forçoso que após a morte desastrosa
Das divindades vãs, fantásticas de outrora
Se eleve, como um astro, a crença luminosa
De uma igreja maior, mais forte e duradoura.

Seja pois o universo a Grande Igreja
Onde o novo ritual em pompas de Thabor
Se célebre, e cada um o sacerdote seja,
E cada peito o altar da religião do Amor.


Augusto de Lima
"Em A Lanterna, semanário anticlerical libertário, São Paulo, 27/06/1914"

Na nossa trincheira o sangue é mais vermelho

Mudam-se os nomes, mas não as relações
A linguagem é mais uma trincheira, disso muito sabem os senhores
E os que lhes auxiliam a nos manter em grilhões
Para o "livre desenvolvimento" da acumulação capitalista
O aumento dos lucros e a socialização da miséria
É travestido com o nome sugestivo de "terceirizações"
O governo da pseudoesquerda, acusado por seus asseclas
De ser conivente e promotor de mais uma entre tantas traições
Desde o seu início mostra sua verdadeira face e é indefensável
Pois seu objetivo continua a ser nos manter em grilhões
Fala-se em golpe da direita, mas a pseudoesquerda bate bem e bate muito forte...
Ataque e mais ataque e depois de mais esse duro golpe
As classes exploradas e oprimidas, que não são tão ingênuas e amorfas
-Desde junho e julho de 2013 temos a mais cabal e concreta prova-
Precisam intensificar a luta, libertando-se das burocracias e demais ilusões
Os conflitos de classe no mundo se acirram
E não me refiro às falsas polarizações
A cada dia se torna mais necessário aprofundar a crítica sem piedade
Ao capital, estado, partidos, igrejas, polícias e demais instituições
Cuja existência só possui sentido nesta sociedade
Que para se reproduzir necessita do aumento da violência e das punições
A maioridade penal aos 16, cortes na educação, na saúde
Chacinas, morticínios e repressão nas periferias com as desocupações
Agora assaltam as conquistas dos trabalhadores, que também
Foram fruto de sangue, suor e lágrimas nas ruas e trincheiras
E não benesses advindas das sagradas legislações
Como querem nos fazer crer os oligopólios das comunicações
Há quem ainda peça paz e menos violência
Diante da barbárie sistemática que nos dilacera
Pedir paz contra quem tem o monopólio da brutalidade
É o mesmo que querer perfumar o odor fétido
Dos senhores que nos mantém na mediocridade
Já passou da hora de pedir clemência
Ou um Estado que "cumpra suas funções"
A luta deve ser pela derrubada profunda, radical e violenta
Da ordem burguesa e todas as suas expressões!

Rubens Vinícius

Poema obsceno

Façam a festa 
cantem e dancem 
que eu faço o poema duro 
o poema-murro 
sujo como a miséria brasileira 

Não se detenham: 
façam a festa 
Bethânia Martinho 
Clementina Estação Primeira de Mangueira Salgueiro 
gente de Vila Isabel e Madureira 
todos 
façam 
a nossa festa 
enquanto eu soco este pilão 
este surdo 
poema 
que não toca no rádio 
que o povo não cantará 
(mas que nasce dele) 
Não se prestará a análises estruturalistas 
Não entrará nas antologias oficiais 
Obsceno 
como o salário de um trabalhador aposentado 
o poema 
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país 
- e espreitam.  

Ferreira Gullar

Ordem Mecânica

O principal libelo de nosso mundo é a engrenagem mecânica.
Roda nela o ser humano dentro de uma ordem todo tirânica.

Para produzir uma montanha de inutilidades industrializadas
Trabalha o operário, cotidianamente, em dinâmicas rotinizadas.

Toda a vida que um mundo inteiro de relações cria
É simplesmente uma arte administrada contra a alegria.

Mas a dor da repetição realizada de forma infinita
É sentida de modo alucinante pela multidão aflita.

E a engrenagem roda muito violenta: dente-a-dente.
Em cada vão segundo, tomba mais um homem doente.

Pois na repetição da rotina infernal sem anistia
Vive todo o povo morrendo dia-após-dia.

E da máquina que funciona impassível
Brota uma lógica social quase invisível,

Que transforma o homem em simples engrenagem
Donde ele funciona e as máquinas soberanas agem.

Hoje reina absoluta e forte dentro da oficina
A máquina, este grande monstro de rapina.

Mas a máquina é somente uma manifestação mecânica
De homens mecanizados, furiosos, tal qual lava vulcânica.

Ahhhh!!! Não se sabe hoje em dia quem é mais artificial,
Se a máquina que domina o homem ou o homem que virou metal.


Texto: Lucas Maia

Imagem: Cena do filme Tempos Modernos de Charlie Chaplin 

Desobedecer

Desobedecer é viver
Fazer tudo que queres fazer
Desobedecer é subverter
Contra todos aqueles que querem nos deter
Ser e não precisar de ter
Desobedecer é liberdade
Estar com tranquilidade
Sem se preocupar com a idade
Desobedecer é amor
Viver sem rancor
Revolucionar a dor
Desobedecer é sonhar
Estar em todo lugar
Caminhando sem parar


Gilcélio

https://vomitossubversivos.wordpress.com/

Perspectiva do proletariado

Cresça no seu peito autêntica certeza
Que nos que hoje são humilhados
Explorados e inferiorizados
É que reside a verdadeira grandeza

A grandeza que esses carregam
não é a capacidade de suportar
Essa odiável situação
Mas sua capacidade de lutar
Se unir para a ação
Sua humanidade afirmar
Promover a transformação.
Essa velha ordem aniquilar
E construir a autogestão

Avante!

Vós que tendes a vida torturada
Pelo jugo mordaz da burguesia;
Vós que horrores sofreis dia por dia
Dessa turba cruel, envenenada;

Vós que a razão sentis amordaçada
Pelo grito brutal da Tirania,
Tempo é já de abater a covardia
E da turba abafar a gargalhada!...

Levantai-vos do charco apodrecido!
Sejai firmes na Grande Trajetória,
Reivindicai o tempo já perdido!...

Avante, ó paladinos do Crisol,
Que além desvendará nossa vitória,
Através da brancura d'outro Sol!...


Antonio Rocha
01/09/1914